Braçadas de rara ousadia

A CRONOLOGIA DA ÁGUA       

Parafraseando Guimarães Rosa, o que o cinema quer da gente é coragem. E isso não faltou a Kristen Stewart em sua estreia na direção. Ao levar para o cinema as memórias da escritora Lidia Yuknavitch, Kristen parece movida por um trecho do livro que diz:

“Meu objetivo é transportar o leitor para o espaço da infância e da vida adulta, onde o medo, a confusão e a raiva nascem — como acontece com todos nós por diferentes razões. Quero colocar o leitor em contato com o próprio corpo através da linguagem.”

Desde as primeiras imagens, A Cronologia da Água (The Chronology of Water) se afirma como um trabalho de grande empenho experimental. O uso da película de 16mm produz uma imagem texturizada e sensorial, que condiz com a visceralidade do relato. Kristen, também autora do roteiro, e sua montadora Olivia Neergaard-Holm criaram uma gramática muito especial para exprimir os ecos de memória, a onipresença da dor na vida de Lidia e a vertigem a que ela submetia seu corpo pelo sexo, as drogas e a autossabotagem.

Da infância abusada física e sexualmente pelo pai tóxico, Lidia foge para uma carreira de nadadora, no entanto abortada pelo vício. Em meio a casamentos turbulentos, relações bissexuais, sessões de terapia BDSM e tragédias pessoais, ela vai ter aulas com o doidão Ken Kesey (autor do romance Um Estranho no Ninho), interpretado por Jim Belushi, e descobrir-se como escritora.

Imogen Poots se revela uma enorme atriz, com um rosto capaz de tudo, no papel central. Ela é a parceira ideal da diretora para levar adiante algumas ousadias raras no cinema mainstream estadunidense atual. A sexualidade de Lidia explode na tela com um misto de fúria, dor e umidade. É por essa via que a moça procura exorcizar as lembranças odiosas do pai e refundar-se como mulher. “Quantas milhas devemos nadar para sermos alguém”, ela se pergunta.

A água é a metáfora da travessia rumo à própria identidade e também o elemento constitutivo de 60% a 70% do nosso corpo. Kristen Stewart navega em seu filme líquido, em que os tempos se entrecruzam, as imagens se rebatem inquietas e o som tem um protagonismo suprarreal. Projeto de tal audácia tinha tudo para se afogar perto da praia. Mas a brava Kristen, atriz da franquia Crepúsculo e estrela do Na Estrada de Walter Salles, performou uma virada olímpica com esse intenso retrato de mulher.

>> A Cronologia da Água está nos cinemas.

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